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Momento de autodepreciação / Introdução ao Amar o diferente

Vejo que é inviável alguém ter interesse por mim durante um bom tempo. As pessoas podem ter esse interesse quando não me conhecem direito. Elas vêem aquelas minhas fotos bonitas no Facebook, têm conversas de poucas palavras, logo acham que sou grande coisa. Depois começam a conviver, passam a conversar mais, elas percebem que não sou bem isso. Na vida real eu sou horrível, tanto fisicamente quanto emocionalmente. A partir disso, me tratam como se eu fizesse uma propaganda enganosa e me deixam de lado. Talvez não estejam errados.

Então, uma forma de me proteger dessas tristezas é desmerecer os relacionamentos alheios, pensando que é impossível um casal passar da fase inicial de um namoro tendo interesse mútuo. Se ele curte todas as postagens dela e interage ativamente, não poupando elogios, é porque ele está a fazer algo de errado escondido. É como se ele suprisse de outra forma para disfarçar. Se ele não deve nada, ele não precisa ficar se reafirmando o tempo todo. Dane-se se eles se vêem todo final de semana e feriados, se um não sai sem o outro, dane-se tudo isso. Ele só está disfarçando a(s) traição(ões). É impossível que ele ainda queira a ver todos os dias depois de tanto tempo aturando suas desgraças. Ninguém é tão perfeito assim a ponto de conquistar o interesse de alguém durante muito tempo. Pensar assim é uma ótima conformação a respeito de eu não ter conseguido ter essa atenção durante muito tempo em um relacionamento longo. Também serve como conformação em caso de não receber isso em relações futuras, sendo mais fácil me conformar com o pouco que eu receberia, sem exigências.

De forma geral, eu não sou relevante pra ninguém. Não sou legal, muito menos bonita. Sou a típica pessoa sem sal. Não gosto das coisas que as pessoas do meu convívio gostam, não me identifico com posicionamentos políticos extremos, não tenho os mesmos costumes que eles. De uma forma ou de outra, nunca vou ser bem aceita por nenhum grupo. Transitei em um número mais do que suficiente pra saber disso. Percebi que, se caso eu não mudasse, eu continuaria pra sempre sozinha e isso me magoava, então optei pela mudança. Tentei ser como eles e deu certo por um tempo, mas logo a verdade veio à tona e tudo se desfez. Tipo Cinderela mesmo, ou até pior, porque nem príncipe tinha nessa merda.

Depois disso, no final da minha adolescência, desfiz essa mudança e retomei o caminho de construção identitária que eu tinha antes. Aceitei ser sozinha, na busca de encontrar alguém com quem me identificasse. Já não fazia questão de ter muitos amigos. Na minha cabeça, se ao menos eu conseguisse um relacionamento, seria questão de tempo pros outros surgirem. Eu não imaginava o quanto isso seria um erro grave, mas abordarei isso em um outro texto.

Tempos passaram e nada feito. Permanecia sozinha. Consegui um trabalho que me deu esperança de reverter esse quadro, mas só saía de casa para trabalhar, onde era inviável me aproximar de alguém por diversos motivos, ou pra gastar o dinheiro ganho, acompanhada da minha mãe, a única companheira das raras saídas de casa. Fui construindo a ideia de que não seria possível encontrar alguém com quem eu me identificasse de verdade, seguindo aquela teoria de que ninguém é igual a ninguém e deveríamos aprender a lidar com as diferenças. Li relatos de que nem todas as almas gêmeas são idênticas, então decidi me abrir a pessoas diferentes. Fiz amizades com pessoas completamente diferentes de mim e também me relacionei com rapazes diferentes. Ambos os meus namorados não tinham nada a ver comigo, mas tentei não ser tão egoísta e pensei no quanto eu poderia aprender com essas diferenças.

Apesar de até ter uma boa relação com estas pessoas, não demoraria muito pra eu sentir o peso das diferenças. A autoestima começou a cair mais do que o normal, porque outras meninas iguais a eles eram mais atraentes do que eu. Pensei que era paranoia minha, mas cada vez mais os via falar sobre essas garotas, visitava o perfil delas nas redes sociais e via que elas ganhavam mais engajamento deles nessas coisas do que eu. Malditas redes sociais... Senti como se eu sempre quisesse chamar atenção sem conseguir, enquanto elas conseguiam isso naturalmente. Com o passar do tempo fui vendo o quanto eu era de fato irrelevante e que só me mantinham por falta de opção. Tempos depois, ainda me deparo com algum texto pela internet que reafirma isso e desmitifica alguma lembrança boa que eu tenha deles., chegando a conclusão de que de fato fui usada.

Acontecia algo parecido com os meus amigos. Ainda acontece. São muito legais comigo enquanto tenho algo pra resolver junto deles, mas, quando vão se divertir ou fazer algo de bom, não é a mim que convidam.  Por isso, durante a minha vida toda, nunca soube o que é isso de sair com amigos, da forma convencional que todos conhecem. Sempre houve uma separação entre eu e os outros amigos dessas pessoas. Não adiantava passar noites em claro conversando ou qualquer merda dessas. Nenhuma homenagem ou lembrança seria retribuída. Não sou eu que conquisto sua admiração. Nenhum esforço foi válido porque eu sou uma pessoa fácil de cair no esquecimento.

Agora, vejo que não tenho que forçar relações com pessoas diferentes de mim. Não tenho obrigação de me abrir, a mudar quem eu sou, a me expor a situações que me fazem mal, só pra não ficar sozinha. Muitas das vezes reconheci que era melhor estar sozinha do que estar vivendo aquelas situações de humilhação, por simplesmente agir como antigamente chamavam de mendigar atenção. Coisas que nem mendigando consegui. Eu tinha que ser eu mesma, como disse um Gallagher vinte e dois anos atrás. Mas quem eu sou, afinal? Me perdi no meio de tanta mudança e adaptação falhas. Me dediquei por meses e anos a voltar naquele caminho, lá no comecinho, que eu já tinha abandonado uma vez. Hoje aceito melhor a solidão, reconheço que algumas amizades existem apenas por conveniência em um contexto específico e sei que esse ano é um divisor de águas.

Estou cada vez mais próximo de conseguir chegar ao objetivo, apesar de algumas coisas não terem mudado muito. Ainda não me vejo sendo a pessoa que recebe atenção, que mantém vivo o interesse de alguém e assim se vai. Minha mãe narra um relacionamento perfeito onde o rapaz sempre ligava, sempre procurava, sempre queria saber como vão as coisas, por onde a pessoa andava... não consigo ver nada disso pra mim. No fundo eu quero isso, mas no geral não faço muita questão. Isso me dá certa liberdade. Quanto as redes, posso postar a besteira que for, sem me preocupar se isso vai manchar minha imagem ou algo assim, mas hoje em dia prefiro passar despercebida. Não é mais um problema para mim. Exatamente por isso, o próximo passo é trabalhar mais essa questão das redes sociais. Espero que, no fim da graduação, eu possa me libertar destes itens. Isso também é coisa para um outro texto.


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