Essa semana ocorreu um fato que despertou muitas críticas sobre essa valorização atual da cultura negra. Pessoas que sequer fazem parte da cultura tentam a todo custo adentrar nela, demonstrando apoio e até alguma identificação. Entendemos esse apoio como estratégia de marketing. Se você demonstra apoio à uma cultura, facilita que seu produto venda mais, por atingir um público maior. Esse é um fato. Dificilmente um movimento consegue apoio sem ser comercializado (vide o movimento Fora Temer, que em nada resulta além de uma identificação entre pessoas com pessoas e pessoas com produtos).
Pois bem, estes famosos como Madonna tem essa justificativa para apoiar o movimento. Uso Madonna como exemplo porque, além de eu ser uma fã, reconheço que ela foi pioneira nessa estratégia (como sempre): desde o início apoiava o movimento negro e LGBT, inclusive foi uma das primeiras artistas pop (se não a primeira) a incluir participações de rappers em canções pop misturadas com R&B (vide o álbum Bedtime Stories, de 1994, ou até mesmo a canção Did You Do It?, presente no álbum Erotica, de 1992). Fez doações, shows beneficentes, namorou um grande rapper famoso, adotou crianças negras, construiu escolas para meninas no Malawi... Tudo isso before it was cool, mas isso não diminui o fato de ser uma estratégia. Quem conhece Madonna sabe que tudo o que ela faz é estratégia para promover a si mesma. Um fato é que, por mais que ela se adentre nessa cultura, ela nunca saberá como é viver na pele. Uma prova disso é essa imagem como defensora da polícia, em um momento que ela sequer sabe qual é a relação entre a polícia carioca e as pessoas negras que ela tanto apoia.
Outros artistas e indústrias perceberam, muito depois disso, que esse apoio era rentável. Ora, por quê vou impor uma cultura branca e elitizada que as pessoas nunca irão atingir se eu posso simplesmente comercializar a cultura da qual você tanto foge?! Pois bem, meninas. Funcionou.
Antes ninguém dava a mínima para a cultura negra/feminista/LGBT. Nem mesmo você. Se você mesma renegava sua cultura uns 2 anos atrás, se sentia superior às outras meninas por ser menos preta que elas, debochava do cabelo da colega que não tinha escova, fazia piadas com machismo, estupro e sexualidade... Tudo isso porque era legal na época. Te dava status social, te tornava aceitável pelos outros.
O embranquecimento de Anitta, para que seu trabalho fosse melhor aceito pelas elites.
Hoje vejo as mesmas meninas empoderadas, a transição capilar caminhando, fazendo filtro anti estupro no Facebook, usando gírias LGBT que aprenderam no LDRV (eca) numa tentativa forçada de se mostrar ser do vale, gírias que já caíram em desuso há anos... Se você mesma mudou de opinião drasticamente quando os movimentos sociais se tornaram rentáveis e passaram a dar status, por quê artistas e empresários não podem fazer o mesmo?
Sinceramente, eu deveria ficar feliz por essas pessoas terem evoluído, finalmente reconhecerem as próprias lutas e compreenderem as lutas alheias, ou seja, terem se tornado pessoas melhores de conviver. Mas me desculpe, Paulo Freire, não tenho tanta fé na humanidade e fico triste porque tenho consciência de que tudo isso é moda. É algo que está vendendo. E se está na vitrine, é pra consumir, né? É algo que te permite ser cool perante os outros, afinal é o que todos estão falando agora. Pois bem, daqui a alguns anos veremos quantas continuarão resistindo, quantas estarão problematizando no Facebook, quantas não voltarão a ter preguiça de ler textão. Espero apenas estar sendo desacreditada mesmo.



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